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NÚMEROS COMPLEXOS

Introdução

Os números complexos surgem de um problema simples: a equação \(x^2+1=0\) não tem solução dentro dos números reais, porque nenhum real ao quadrado dá \(-1\). Em vez de descartar esse tipo de equação, definimos um novo número, \(i\), que resolve exatamente esse problema, e construímos um sistema numérico inteiro em torno dele — os números complexos — que contém os reais como caso particular e permite resolver qualquer equação polinomial.

Um pouco de história

O nome "imaginário" é um acidente histórico, não uma descrição precisa. Raízes quadradas de negativos apareciam já no século XVI, nas fórmulas de Cardano/Tartaglia para resolver equações cúbicas — curiosamente, mesmo quando a equação tinha três raízes reais, a fórmula passava por um passo intermediário com \(\sqrt{-1}\). Bombelli (1572) foi o primeiro a manipular essas quantidades com regras consistentes, mas só com Euler (que introduziu a notação \(i\)) e, depois, com a interpretação geométrica de Wessel, Argand e Gauss (fim do séc. XVIII/início do XIX) como pontos de um plano, os complexos deixaram de ser vistos como um truque de cálculo e passaram a ser um sistema numérico tão legítimo quanto os reais.

A unidade imaginária

Define-se a unidade imaginária \(i\) como uma raiz quadrada de \(-1\):

\[i^2 = -1 \qquad \text{ou, equivalentemente,} \qquad i = \sqrt{-1}\]

Potências de \(i\)

A partir disso, as potências de \(i\) entram num ciclo de período 4:

\[i^0=1,\quad i^1=i,\quad i^2=-1,\quad i^3=-i,\quad i^4=1,\quad i^5=i,\ \dots\]

Calculando potências de i rapidamente

Para qualquer expoente \(n\), divida \(n\) por \(4\) e olhe só o resto \(r\): \(i^n = i^r\). Exemplo: \(i^{37}\), como \(37 = 4\cdot9+1\), então \(i^{37}=i^1=i\).

Forma algébrica (ou retangular)

Um número complexo \(z\) é escrito como:

\[z = a + bi, \qquad a,b \in \mathbb{R}\]
  • \(a = \text{Re}(z)\) é a parte real.
  • \(b = \text{Im}(z)\) é a parte imaginária (note que \(b\) é um número real — "parte imaginária" é o coeficiente que multiplica \(i\), não \(bi\) em si).

O conjunto de todos os números complexos é denotado \(\mathbb{C}\). Quando \(b=0\), \(z=a\) é só um número real — ou seja, \(\mathbb{R}\subset\mathbb{C}\). Quando \(a=0\) e \(b\neq0\), \(z=bi\) é chamado imaginário puro.

Exemplos

\(z_1 = 3+2i\) tem \(\text{Re}(z_1)=3\) e \(\text{Im}(z_1)=2\).

\(z_2 = -5i\) é imaginário puro, com \(\text{Re}(z_2)=0\) e \(\text{Im}(z_2)=-5\).

\(z_3 = 7\) é um real "disfarçado" de complexo, com \(\text{Im}(z_3)=0\).

Classificação

Todo \(z=a+bi\) se encaixa em exatamente uma destas categorias:

Condição Classificação
\(b=0\) número real (\(z=a\))
\(a=0\) e \(b\neq0\) imaginário puro (\(z=bi\))
\(a\neq0\) e \(b\neq0\) complexo não-real (as duas partes contam)
\(a=0\) e \(b=0\) complexo nulo (\(z=0\))

Igualdade

Dois complexos são iguais se e somente se têm a mesma parte real e a mesma parte imaginária:

\[a+bi = c+di \iff a=c \text{ e } b=d\]

Isso é o que permite "separar em parte real e imaginária" ao resolver equações com complexos — cada lado tem que bater componente a componente.

Operações básicas

Com \(z_1 = a+bi\) e \(z_2=c+di\):

Soma e subtração — some/subtraia parte real com parte real, imaginária com imaginária:

\[z_1 \pm z_2 = (a\pm c) + (b\pm d)i\]

Multiplicação — distribui normalmente, usando \(i^2=-1\):

\[z_1 \cdot z_2 = (a+bi)(c+di) = ac + adi + bci + bdi^2 = (ac-bd) + (ad+bc)i\]

Exemplo

\((2+3i)(1-4i) = 2\cdot1 + 2\cdot(-4i) + 3i\cdot1 + 3i\cdot(-4i) = 2 - 8i + 3i -12i^2 = 2-5i+12 = 14-5i\)

Divisão — multiplica-se numerador e denominador pelo conjugado do denominador (ver próxima seção), pra eliminar \(i\) do denominador:

\[\frac{z_1}{z_2} = \frac{a+bi}{c+di} = \frac{(a+bi)(c-di)}{(c+di)(c-di)} = \frac{(ac+bd)+(bc-ad)i}{c^2+d^2}\]

Exemplo

\(\dfrac{1+2i}{3-i} = \dfrac{(1+2i)(3+i)}{(3-i)(3+i)} = \dfrac{3+i+6i+2i^2}{9+1} = \dfrac{1+7i}{10} = \dfrac{1}{10}+\dfrac{7}{10}i\)

Conjugado

O conjugado de \(z=a+bi\) é \(\bar z = a-bi\) (mesma parte real, parte imaginária com o sinal trocado). Geometricamente, é o reflexo de \(z\) em torno do eixo real.

Propriedades úteis:

\[z \cdot \bar z = a^2+b^2 \in \mathbb{R} \qquad\qquad z+\bar z = 2a = 2\,\text{Re}(z) \qquad\qquad z-\bar z = 2bi\]

A primeira propriedade — o produto de \(z\) pelo conjugado ser sempre real e não-negativo — é exatamente o que torna possível "racionalizar" denominadores complexos na divisão acima, e é a base da definição de módulo a seguir.

Módulo

O módulo (ou valor absoluto) de \(z=a+bi\) mede sua distância até a origem no plano complexo:

\[|z| = \sqrt{a^2+b^2} = \sqrt{z\cdot\bar z}\]

Propriedades:

\[|z_1 z_2| = |z_1||z_2| \qquad\qquad \left|\frac{z_1}{z_2}\right| = \frac{|z_1|}{|z_2|} \qquad\qquad |z_1+z_2| \le |z_1|+|z_2| \text{ (desigualdade triangular)}\]

Notação: r ou rô?

É comum ver o módulo denotado pela letra grega \(\rho\) (rô) em vez de \(r\) — principalmente a partir da forma polar em diante. São exatamente a mesma coisa: \(\rho = r = |z|\). Este resumo usa \(r\), mas se o seu professor/livro usar \(\rho\), é só trocar o símbolo — nenhuma fórmula muda.

Plano complexo (plano de Argand-Gauss)

Como \(z=a+bi\) é determinado por dois números reais, ele pode ser representado como um ponto \((a,b)\) (ou um vetor da origem até esse ponto) num plano cartesiano: o eixo horizontal é o eixo real e o vertical é o eixo imaginário.

  • \(\text{Re}(z)\) = coordenada \(x\)
  • \(\text{Im}(z)\) = coordenada \(y\)
  • \(|z|\) = comprimento do vetor (distância até a origem)
  • \(\bar z\) = reflexo de \(z\) no eixo real
  • \(-z\) = reflexo de \(z\) na origem (rotação de \(180°\))

O ponto \((a,b)\) que representa \(z\) nesse plano tem um nome: é o afixo de \(z\) (também chamado de "imagem" de \(z\)). Ou seja, "o afixo de \(z=3+4i\)" é simplesmente o ponto \((3,4)\) — é só o termo técnico para a localização geométrica de um complexo. Toda a discussão de módulo, argumento e forma polar a seguir é, no fundo, uma forma de descrever onde fica o afixo de \(z\).

Essa representação geométrica é o que faz os números complexos serem especialmente úteis: soma de complexos é soma vetorial, e — como veremos a seguir — multiplicação tem uma interpretação geométrica igualmente limpa em termos de rotação e escala.

Argumento

O argumento de \(z=a+bi\) (não-nulo), denotado \(\arg(z)\) ou \(\theta\), é o ângulo que o vetor \(z\) faz com o semieixo real positivo, medido no sentido anti-horário:

\[\theta = \arg(z) = \arctan\!\left(\frac{b}{a}\right) \;\; \text{(ajustando o quadrante)}\]

Cuidado com o quadrante

\(\arctan(b/a)\) sozinho só dá o ângulo certo diretamente para \(z\) no primeiro ou quarto quadrante (\(a>0\)). Para \(a<0\), some \(180°\) (\(\pi\) rad) ao resultado; para \(a=0\), o ângulo é \(90°\) ou \(270°\) dependendo do sinal de \(b\). Na prática, é mais seguro desenhar o ponto \((a,b)\) e raciocinar geometricamente, ou usar a função atan2(b,a) de uma calculadora/linguagem de programação, que já trata os quadrantes automaticamente.

\(\arctan\) não é a única forma de calcular \(\theta\) — é só a mais usada porque dá um número direto. O jeito mais fundamental, que não tem ambiguidade de quadrante nenhuma, é usar as duas equações que definem o próprio ponto \((a,b)=(r\cos\theta,\,r\sin\theta)\):

\[\cos\theta = \frac{a}{r} \qquad\qquad \sin\theta = \frac{b}{r}\]

Como \(\cos\theta\) sozinho já diz se \(\theta\) está mais perto do eixo positivo ou negativo, e \(\sin\theta\) sozinho já diz se está "em cima" ou "embaixo", os sinais de \(\cos\theta\) e \(\sin\theta\) juntos identificam o quadrante sem ambiguidade — diferente de \(\tan\theta=\sin\theta/\cos\theta\), que "perde" essa informação porque \(\tan\) tem o mesmo valor em quadrantes opostos (ex.: \(\tan(45°)=\tan(225°)=1\)). \(\arctan(b/a)\) é justamente a razão \(\sin\theta/\cos\theta\) — daí a necessidade de "consertar" o quadrante na mão depois.

O argumento não é único — \(\theta\) e \(\theta+360°k\) (para qualquer inteiro \(k\)) representam o mesmo ponto, já que somar uma volta completa não muda a direção. O valor de \(\theta\) no intervalo \((-180°,180°]\) (ou \((-\pi,\pi]\)) é chamado argumento principal, e é o que normalmente se usa como "o" argumento de \(z\) quando não se especifica outra coisa.

Forma polar (trigonométrica)

Em vez de descrever \(z\) pelas coordenadas \((a,b)\), pode-se descrevê-lo pelo módulo \(r=|z|\) e pelo argumento \(\theta=\arg(z)\) definidos acima:

\[a = r\cos\theta \qquad b = r\sin\theta \qquad \Longrightarrow \qquad z = r(\cos\theta+i\sin\theta)\]

Convertendo para forma polar

\(z = 1+i\sqrt3\): \(r = \sqrt{1^2+(\sqrt3)^2} = \sqrt{4} = 2\). Como \(a=1>0\), \(\theta=\arctan(\sqrt3/1) = 60° = \pi/3\).

Logo, \(z = 2(\cos 60° + i\sin 60°)\).

Notação "cis"

A expressão \(\cos\theta+i\sin\theta\) aparece tanto que ganhou uma abreviação: \(\text{cis}\,\theta\), lida literalmente como "cosseno imais seno de \(\theta\)" (c-i-s = cos + i + sen). Por definição,

\[\text{cis}\,\theta := \cos\theta+i\sin\theta\]

e por isso a forma polar costuma aparecer escrita de forma mais compacta como:

\[z = r\,\text{cis}\,\theta\]

Não é uma fórmula nova nem um conceito diferente — é exatamente \(z=r(\cos\theta+i\sin\theta)\) de antes, só que "cis \(\theta\)" é mais rápido de escrever do que repetir "\(\cos\theta+i\sin\theta\)" toda vez (vai aparecer bastante nas próximas seções, sobre multiplicação/divisão e nas fórmulas de De Moivre).

Multiplicação e divisão em forma polar

A forma polar é o que torna multiplicação/divisão de complexos geometricamente intuitivas: módulos se multiplicam/dividem, argumentos se somam/subtraem.

\[z_1 z_2 = r_1 r_2\big(\cos(\theta_1+\theta_2) + i\sin(\theta_1+\theta_2)\big) \qquad\qquad \frac{z_1}{z_2} = \frac{r_1}{r_2}\big(\cos(\theta_1-\theta_2)+i\sin(\theta_1-\theta_2)\big)\]

Com a notação "cis" da seção anterior, fica ainda mais curto de escrever: \(z_1z_2 = r_1r_2\,\text{cis}(\theta_1+\theta_2)\) e \(z_1/z_2 = (r_1/r_2)\,\text{cis}(\theta_1-\theta_2)\).

Ou seja: multiplicar por \(z_2\) é "esticar" por um fator \(r_2\) e "girar" por um ângulo \(\theta_2\). Esse é o motivo pelo qual multiplicar por \(i\) (que tem \(r=1,\ \theta=90°\)) corresponde a girar \(90°\) no plano complexo.

Forma exponencial e fórmula de Euler

A fórmula de Euler conecta a exponencial complexa com seno e cosseno:

\[e^{i\theta} = \cos\theta + i\sin\theta\]

Combinando com a forma polar, qualquer complexo pode ser escrito na forma exponencial:

\[z = re^{i\theta}\]

Essa forma deixa multiplicação/divisão/potenciação ainda mais diretas, já que viram só álgebra de expoentes:

\[z_1 z_2 = r_1 r_2\, e^{i(\theta_1+\theta_2)} \qquad\qquad \frac{z_1}{z_2} = \frac{r_1}{r_2}\,e^{i(\theta_1-\theta_2)}\]

Identidade de Euler

Um caso particular famoso: fazendo \(\theta=\pi\) na fórmula de Euler, \(e^{i\pi} = \cos\pi+i\sin\pi = -1+0i\), ou seja:

\[e^{i\pi}+1=0\]

Essa equação é frequentemente citada como uma das mais bonitas da matemática por juntar cinco constantes fundamentais (\(e\), \(i\), \(\pi\), \(1\), \(0\)) e as três operações básicas (soma, multiplicação, potenciação) numa única igualdade.

Potenciação: 1ª Fórmula de De Moivre

Elevar um complexo em forma polar/exponencial a uma potência inteira \(n\) é direto:

\[z^n = r^n\big(\cos(n\theta)+i\sin(n\theta)\big) = r^n\,\text{cis}(n\theta) = r^n e^{in\theta}\]

Essa é a fórmula de De Moivre: eleva o módulo à \(n\)-ésima potência e multiplica o argumento por \(n\).

Por que isso "é" a fórmula de Euler

A fórmula de De Moivre não é um fato separado da fórmula de Euler — ela sai direto da fórmula de Euler, bastando elevar os dois lados à potência \(n\). Relembrando Euler, \(\cos\theta+i\sin\theta = e^{i\theta}\). Então:

\[z^n = \big(\cos\theta+i\sin\theta\big)^n = \big(e^{i\theta}\big)^n = e^{in\theta} = \cos(n\theta)+i\sin(n\theta)\]

O passo do meio, \(\left(e^{i\theta}\right)^n=e^{in\theta}\), é só a regra de potência de expoentes que já valia pra exponencial real (\((e^x)^n=e^{nx}\)) — Euler garante que ela continua valendo com expoente imaginário. É exatamente isso que faz \(\cos(n\theta)+i\sin(n\theta)\) aparecer do lado direito "de graça": a fórmula de Euler é o motivo pelo qual De Moivre funciona, não uma coisa à parte dela. Dito de outro modo: De Moivre é Euler elevado à \(n\)-ésima potência.

Se preferir pensar sem Euler

Dá pra chegar no mesmo resultado só com geometria, sem passar pela exponencial: multiplicar por \(z=r\,\text{cis}\,\theta\) gira o afixo por \(\theta\) e estica por \(r\) (visto na seção de multiplicação em forma polar). Elevar a \(z^n\) é multiplicar \(z\) por si mesmo \(n\) vezes, ou seja, aplicar essa rotação+escala \(n\) vezes seguidas — gira \(n\cdot\theta\) no total e estica por \(r^n\). As duas explicações (via Euler, ou via "rotações que se acumulam") levam exatamente à mesma fórmula.

Exemplo

Calcular \((1+i)^{10}\). Primeiro em forma polar: \(r=\sqrt2\), \(\theta=45°\). Então:

\[(1+i)^{10} = (\sqrt2)^{10}\big(\cos(450°)+i\sin(450°)\big) = 32\big(\cos(90°)+i\sin(90°)\big) = 32(0+1i) = 32i\]

(usei \(450° = 360°+90°\), que dá o mesmo ponto que \(90°\).)

Radiciação: 2ª Fórmula de De Moivre (raízes \(n\)-ésimas)

Diferente dos reais, todo número complexo não-nulo tem exatamente \(n\) raízes \(n\)-ésimas distintas. Se \(z=r(\cos\theta+i\sin\theta)\), suas \(n\) raízes \(n\)-ésimas são:

\[w_k = \sqrt[n]{r}\left(\cos\frac{\theta+360°k}{n} + i\sin\frac{\theta+360°k}{n}\right), \qquad k=0,1,2,\dots,n-1\]

Geometricamente, essas \(n\) raízes estão todas sobre um círculo de raio \(\sqrt[n]{r}\), igualmente espaçadas por um ângulo de \(360°/n\) entre si — formam os vértices de um polígono regular de \(n\) lados.

Raízes cúbicas de 8

O que esse exemplo está pedindo: encontrar todo número complexo \(w\) tal que \(w^3=8\). Nos reais, só existe uma resposta (\(w=2\)). Nos complexos, pela 2ª fórmula de De Moivre, existem exatamente \(n=3\) respostas — é isso que vamos calcular.

Passo 1 — escrever \(z=8\) em forma polar. \(8\) é um número real positivo, então no plano complexo seu afixo está sobre o eixo real positivo: \(r=|8|=8\) e \(\theta=0°\). Logo \(z=8(\cos0°+i\sin0°)\).

Passo 2 — aplicar a fórmula das raízes \(n\)-ésimas, com \(n=3\) (queremos raiz cúbica) e \(k=0,1,2\) (são \(n=3\) raízes, então \(k\) vai de \(0\) até \(n-1=2\)):

\[w_k = \sqrt[3]{8}\left(\cos\frac{0°+360°k}{3}+i\sin\frac{0°+360°k}{3}\right)\]

O módulo de toda raiz é o mesmo, \(\sqrt[3]{8}=2\) — só o ângulo muda com \(k\). Calculando o ângulo pra cada \(k\):

  • \(k=0\): ângulo \(=\dfrac{0°+360°\cdot0}{3}=\dfrac{0°}{3}=0°\)
  • \(k=1\): ângulo \(=\dfrac{0°+360°\cdot1}{3}=\dfrac{360°}{3}=120°\)
  • \(k=2\): ângulo \(=\dfrac{0°+360°\cdot2}{3}=\dfrac{720°}{3}=240°\)

Passo 3 — converter cada raiz de volta pra forma algébrica, usando os valores conhecidos de seno/cosseno:

\[w_0 = 2(\cos0°+i\sin0°) = 2(1+0i) = 2\]
\[w_1 = 2(\cos120°+i\sin120°) = 2\left(-\tfrac12+i\tfrac{\sqrt3}{2}\right) = -1+i\sqrt3\]
\[w_2 = 2(\cos240°+i\sin240°) = 2\left(-\tfrac12-i\tfrac{\sqrt3}{2}\right) = -1-i\sqrt3\]

Conferindo: se elevar qualquer um dos três ao cubo, o resultado tem que dar \(8\) de volta — é assim que se sabe que a conta está certa (tente com \(w_0=2\): \(2^3=8\) ✓).

Só \(w_0=2\) é uma raiz "real" (a mesma que já conhecíamos) — as outras duas, \(w_1\) e \(w_2\), são raízes genuinamente complexas que não existiam nos números reais, mas que valem igualmente como "raiz cúbica de 8". Geometricamente, os três afixos \((2,0)\), \((-1,\sqrt3)\) e \((-1,-\sqrt3)\) ficam todos sobre o círculo de raio \(2\) centrado na origem, espaçados \(120°\) um do outro — ou seja, formam os vértices de um triângulo equilátero inscrito nesse círculo. Isso é geral: as \(n\) raízes \(n\)-ésimas de qualquer complexo sempre formam um polígono regular de \(n\) lados.

Por que isso importa: Teorema Fundamental da Álgebra

O motivo histórico/estrutural pelo qual os complexos são tão importantes: o Teorema Fundamental da Álgebra garante que todo polinômio de grau \(n \ge 1\) com coeficientes complexos (em particular, reais) tem exatamente \(n\) raízes em \(\mathbb{C}\), contando multiplicidade. Nos reais isso é falso (\(x^2+1\) não tem raiz real), mas nos complexos é sempre verdade — é nesse sentido que \(\mathbb{C}\) "completa" os reais algebricamente.

Uma consequência prática: polinômios reais com raízes complexas sempre têm essas raízes em pares conjugados. Se \(z=a+bi\) é raiz de um polinômio com coeficientes reais, \(\bar z = a-bi\) também é.

Exemplo

\(x^2-2x+5=0\): usando Bhaskara, \(x = \dfrac{2\pm\sqrt{4-20}}{2} = \dfrac{2\pm\sqrt{-16}}{2} = \dfrac{2\pm4i}{2} = 1\pm2i\).

As duas raízes, \(1+2i\) e \(1-2i\), são conjugadas uma da outra — como esperado, já que os coeficientes do polinômio são reais.

Aplicações

Números complexos não são só um exercício abstrato — aparecem em vários lugares por causa exatamente da propriedade de "rotação + escala" vista na forma polar:

  • Engenharia elétrica: em circuitos de corrente alternada, resistências, capacitores e indutores são combinados usando uma grandeza complexa chamada impedância (\(Z=R+jX\), onde engenheiros costumam usar \(j\) no lugar de \(i\) para não confundir com corrente). Isso transforma equações diferenciais de circuitos em álgebra complexa simples.
  • Processamento de sinais: a Transformada de Fourier, usada para decompor um sinal (áudio, imagem, etc.) em frequências, é definida inteiramente em termos de \(e^{i\theta}\) — a forma exponencial é o que faz essa decomposição funcionar de forma compacta.
  • Computação gráfica e rotações 2D: como visto na seção de forma polar, multiplicar por \(e^{i\theta}\) gira um ponto do plano por \(\theta\) — uma forma elegante de representar rotações 2D, análoga ao papel que os quaternions têm para rotações 3D.
  • Fractais: o conjunto de Mandelbrot é definido por uma iteração puramente em \(\mathbb{C}\): \(z_{n+1}=z_n^2+c\), testando para quais valores de \(c\in\mathbb{C}\) essa sequência permanece limitada.
  • Mecânica quântica: a função de onda que descreve o estado de um sistema quântico é, por definição, uma função de valores complexos — não é só uma conveniência de cálculo, é parte da própria formulação da teoria.

Exercícios Resolvidos

Potências de \(i\)

Exercício 1

Calcule \(i^{58}\).

Solução. \(58 = 4\cdot14+2\), resto \(2\). Logo \(i^{58}=i^2=-1\).

Exercício 2

Calcule \(i^{15}+i^{20}\).

Solução. \(15=4\cdot3+3 \Rightarrow i^{15}=i^3=-i\). \(20=4\cdot5+0 \Rightarrow i^{20}=i^0=1\). Soma: \(-i+1=1-i\).

Forma algébrica, classificação e igualdade

Exercício 3

Classifique \(z_1=4-7i\), \(z_2=9i\), \(z_3=\sqrt2\) e \(z_4=0\) quanto ao tipo (real, imaginário puro, complexo não-real ou nulo).

Solução. \(z_1\): \(a=4\neq0,\ b=-7\neq0\) → complexo não-real. \(z_2\): \(a=0,\ b=9\neq0\) → imaginário puro. \(z_3\): \(b=0\) → real. \(z_4\): \(a=b=0\) → complexo nulo.

Exercício 4

Determine \(x\) e \(y\) reais tais que \((2x-1)+3i = 5+(y+1)i\).

Solução. Pela igualdade de complexos, parte real com parte real e imaginária com imaginária: \(2x-1=5 \Rightarrow x=3\); e \(3=y+1 \Rightarrow y=2\).

Operações na forma algébrica

Exercício 5

Calcule \((5-2i)+(3+6i)-(1-i)\).

Solução. Separando partes reais e imaginárias: \((5+3-1)+(-2+6+1)i = 7+5i\).

Exercício 6

Calcule \((3-2i)(4+5i)\).

Solução. \(3\cdot4 + 3\cdot5i -2i\cdot4 -2i\cdot5i = 12+15i-8i-10i^2 = 12+7i+10 = 22+7i\).

Divisão na forma algébrica

Exercício 7

Calcule \(\dfrac{5+i}{2-3i}\).

Solução. Multiplica numerador e denominador pelo conjugado do denominador, \(2+3i\):

\[\frac{(5+i)(2+3i)}{(2-3i)(2+3i)} = \frac{10+15i+2i+3i^2}{4+9} = \frac{7+17i}{13} = \frac{7}{13}+\frac{17}{13}i\]

Exercício 8

Simplifique \(\dfrac{1}{i}\).

Solução. Multiplica por \(\dfrac{-i}{-i}\) (ou pelo conjugado de \(i\), que é \(-i\)): \(\dfrac{1}{i}\cdot\dfrac{-i}{-i} = \dfrac{-i}{-i^2} = \dfrac{-i}{1} = -i\).

Interpretação geométrica e módulo

Exercício 9

Calcule o módulo de \(z=-6+8i\) e localize-o no plano complexo (indique o quadrante).

Solução. \(|z|=\sqrt{(-6)^2+8^2}=\sqrt{36+64}=\sqrt{100}=10\). Como \(a=-6<0\) e \(b=8>0\), \(z\) está no 2º quadrante.

Exercício 10

Sabendo que \(|z|=5\), que curva no plano complexo é formada por todos os \(z\) que satisfazem essa condição?

Solução. \(|z|=5\) significa que a distância de \(z\) até a origem é sempre \(5\) — ou seja, é a equação de uma circunferência de raio \(5\) centrada na origem.

Argumento

Exercício 11

Determine o argumento principal de \(z=-1-i\).

Solução. \(a=-1,\ b=-1\), ambos negativos → 3º quadrante. \(\arctan(b/a)=\arctan(1)=45°\), mas como estamos no 3º quadrante, somamos \(180°\): \(\theta=45°+180°=225°\). Como argumento principal fica em \((-180°,180°]\), equivalentemente \(\theta=225°-360°=-135°\).

Forma polar

Exercício 12

Escreva \(z=-4\) na forma polar.

Solução. \(r=|-4|=4\). Como \(z\) está sobre o eixo real negativo, \(\theta=180°\). Logo \(z=4(\cos180°+i\sin180°)\).

Exercício 13

Converta \(z=3(\cos210°+i\sin210°)\) de volta para a forma algébrica.

Solução. \(\cos210°=-\frac{\sqrt3}{2}\), \(\sin210°=-\frac12\). \(z = 3\left(-\frac{\sqrt3}{2}-\frac12 i\right) = -\frac{3\sqrt3}{2}-\frac32 i\).

Multiplicação e divisão na forma polar

Exercício 14

Com \(z_1=2(\cos40°+i\sin40°)\) e \(z_2=5(\cos20°+i\sin20°)\), calcule \(z_1z_2\) e \(z_1/z_2\).

Solução. Multiplicação: módulos multiplicam, argumentos somam: \(z_1z_2=2\cdot5\big(\cos(40°+20°)+i\sin(40°+20°)\big)=10(\cos60°+i\sin60°)\).

Divisão: módulos dividem, argumentos subtraem: \(z_1/z_2=\frac{2}{5}\big(\cos(40°-20°)+i\sin(40°-20°)\big)=0{,}4(\cos20°+i\sin20°)\).

1ª Fórmula de De Moivre (potenciação)

Exercício 15

Calcule \(\left(\sqrt3+i\right)^6\).

Solução. Forma polar: \(r=\sqrt{3+1}=2\), \(\theta=\arctan(1/\sqrt3)=30°\). Pela 1ª fórmula de De Moivre:

\[z^6 = 2^6\big(\cos(6\cdot30°)+i\sin(6\cdot30°)\big) = 64(\cos180°+i\sin180°) = 64(-1+0i) = -64\]

2ª Fórmula de De Moivre (radiciação)

Exercício 16

Determine as raízes quartas de \(z=16\).

Solução. \(z=16(\cos0°+i\sin0°)\), \(r=16\), \(n=4\). \(\sqrt[4]{16}=2\).

\[w_k = 2\left(\cos\frac{0°+360°k}{4}+i\sin\frac{0°+360°k}{4}\right),\quad k=0,1,2,3\]
\[w_0=2(\cos0°+i\sin0°)=2 \qquad w_1=2(\cos90°+i\sin90°)=2i\]
\[w_2=2(\cos180°+i\sin180°)=-2 \qquad w_3=2(\cos270°+i\sin270°)=-2i\]

As quatro raízes (\(2,\ 2i,\ -2,\ -2i\)) formam um quadrado no plano complexo, como esperado — todas elevadas à quarta dão \(16\).

Resumo de fórmulas

Conceito Fórmula
Unidade imaginária \(i^2=-1\)
Forma algébrica \(z=a+bi\)
Conjugado \(\bar z = a-bi\)
Módulo \(\vert z\vert=\sqrt{a^2+b^2}=\sqrt{z\bar z}\)
Forma polar \(z=r(\cos\theta+i\sin\theta)\)
Forma exponencial \(z=re^{i\theta}\)
Fórmula de Euler \(e^{i\theta}=\cos\theta+i\sin\theta\)
De Moivre (potência) \(z^n=r^n(\cos n\theta+i\sin n\theta)\)
Raízes \(n\)-ésimas \(w_k=\sqrt[n]{r}\left(\cos\frac{\theta+360°k}{n}+i\sin\frac{\theta+360°k}{n}\right)\)